Quando abriu a boca, notei que tinha uma voz de Michael Jackson. Mais fina até. Mas só a voz. Seus movimentos eram bruscos, quase violentos, e tinha um bafo de vinho barato, talvez misturado com alguma bebida destilada, que não consegui identificar. Não era a primeira vez que o via neste trem. Era, porém, a primeira vez que o ouvia. Em geral ficava a meu lado em silêncio, lendo um volume pesado de Dom Quixote. Volume em papel bíblia. Desde então pensei em lhe dizer que também tinha a mesma edição, mas que nunca saía de minha preteleira. Para isso, tinha outras edições vagabundas. Mas não disse nada. Não é de meu feitio importunar a leitura de meus vizinhos de trem, ou importunar qualquer outra de suas atividades (mesmo que o pensamento seja a atividade). Agora, que falava comigo, nada me ocorria a nãe ser que a voz não condizia com o corpo. Ele tinha bigodes. Uma voz de Michael Jackson em um homem de bigodes. Meu desconcerto foi tamanho que não percebi o que tinhe me dito. Pedi para repetir. Disse-me que havia esquecido a carteira em casa, em cima da mesa, distraído pelos latidos fortes de seu cachorro. Só agora se dava conta. O cobrador estava prestes a passar. Queria minha ajuda, apenas uns trocos emprestados. "Sem problemas", eu disse. Mas, quando abro minha carteira (velha e suja, o que me embaraçou), noto que todo o meu dinheiro havia sido gasto na noite anterior, com vinho barato. (Será que tínhamos o mesmo bafo?). Ele respirou forte, e fino. Vejo que suas mãos suam ao ver o cobrador entrar no vagão. Digo para não se preocupar. O cobrador deve conhecê-lo de outras viagens, e não haverá qualquer problema em pagar outro dia. (Não acredito nisso, na verdade.) Meu bilhete é pedido. O bilhete dele é pedido. Cabisbaixo, responde que deixou para comprar em viagem. Muito bem, são 2 tostões. Diz que não tem, que sua carteira ficou em cima da mesa (o cachorro o distraiu; era um beagle - "como Snoopy"). O cobrador pede para que desça. Diz, em sua voz fina, e agora ainda mais fina, que não pode, que está atrasado para uma reunião. O bafo de vinho se alastra, e vejo que o cobrador faz uma leve careta. Já há olhares e mais olhares em cima de meu vizinho, e noto que comentam sua voz fina. "Ele deve cantar 'Ben' muito bem", diz um senhor gordo, esparramado em sua cadeira, para todo o vagão ouvir. Vejo os risinhos surgirem em todas as bocas. Meu vizinho baixa os olhos, levanta-se e deixa o trem, ao lado do cobrador. Ouço sua voz fina ao longe, sem distinguir o que diz. Nunca mais o vi. Não pude devolver sua edição de Dom Quixote, que ficou em seu assento, marcada a poucas páginas do fim. Guardei-a junto com minha edição, no alto da prateleira, de onde nunca desceu.